CONTOS EM CANTOS
 
Júlio "Satisfeito"   
 

Viveu por estas bandas, mais precisamente na encosta da Serra do Limoeiro, às margens de um riacho de mesmo nome, uma figura que chamava à atenção de todos por sua maneira exótica de combinar seu vestuário, bem como no trato com as demais pessoas.
Durante sua reta vida, jamais se registrou qualquer ato de desagrado com qualquer pessoa, do seu convívio ou não. Seu nome era Júlio, popularmente conhecido como Júlio Satisfeito, por demonstrar sempre o mesmo alto astral para com seus semelhantes. Não destratava a ninguém. Nem mesmo os garotos (capetas) da época, quando ao passarem para o campo da lagoa, tiravam sarro do distinto senhor.
Satisfeito era um pequeno fazendeiro. Sujeito metódico, inteligente, arredio e matreiro. Realizava com presteza suas transações comerciais, que envolviam a venda de animais de carga e montaria e do cacau produzidos na sua pequena propriedade rural. Trazia suas poucas sacas de cacau, sempre no lombo de mulas em pequenas caravanas, desde a sede da fazenda até a cidade baixa de Itapebi, onde vendia suas amêndoas de ouro. Andava montado geralmente num velho pangaré, que devia ser seu companheiro de longas datas. A sela era recoberta com pelego (pele de carneiro) de lã farta e felpuda, a fim de proporcionar a maior comodidade possível. Os arreios eram sempre bem conservados e lustrados. O velho cavalo andava sempre com um nó no rabo, a fim de evitar que, ao ser abanado para afugentar mosquitos, que respingos de lama sujassem seu requintado traje. Usava ainda uma enorme capa de chuva de cor preta, que trazia geralmente amarrada ao cabeçote da sela, além dos tradicionais alforjes, onde levava seus objetos e documentos pessoais. Usava um chapéu de couro de tamanho médio, bem como um lenço vermelho amarrado ao pescoço. Tinha os dentes frontais cobertos por uma camada de ouro, o que significava potencial de riqueza na época.
Para quem não lhe conhecia, a primeira impressão era a de que se tratava de um sujeito no mínimo ‘amalucado’. Vestia-se sempre do mesmo modo: camisa social, geralmente branca. Paletó azul com botões grandes e dourados. Ricos anéis em ouro com pedras em tom azul e vermelho. Relógio de pulso dourado. Gravata larga de cor diferente da do paletó. Calças compridas sobrepostas por dentro das botas de cano alto. Além de um enorme par de meias, que mais pareciam meiões de jogador de futebol, com listras horizontais em preto e branco.

“Sabe-se lá pra que time ele torcia... Se pro Botafogo ou pro Atlético Mineiro”. O certo mesmo, é que ele aparecia todas as semanas, geralmente aos sábados quando se realizavam as tradicionais feiras-livres no ‘Rabo da Gata’, sempre trajado do mesmo jeito.
Além dessas peculiaridades ‘Satisfeito’ andava arrastando as asas por uma distinta senhorita, que deveria ter uns cinqüenta e poucos anos de idade na época. Era a moça, proprietária de um pequeno restaurante, onde ele costumava fazer suas refeições semanais.
Apesar das incessantes investidas na tentativa de capturar a solitária donzela e de suas supostas intimidades, a conclusão que temos é a de que eles não se enrabicharam a ponto de se considerar como namorados. Mas nem mesmo por isso, deixava de estar sempre satisfeito. A ultima viagem de Júlio foi marcada por uma tragédia que acabaria por ceifar sua própria vida.
Veio Júlio bem cedinho à cidade, a fim de comprar na feira-livre, as provisões para a semana. Até aí, nada de anormal. As coisas transcorriam sempre do mesmo jeito. Cumprimentava cortesmente os amigos. Tratava a todos com o merecido respeito e urbanidade e atenção, que nem sempre lhe eram correspondidos. Mas isso não o abalava. Lá pelas duas horas da tarde, despediu-se de sua musa inspiradora e partiu de regresso ao seu pacato recanto rural.
Ao chegar à cidade alta, mais precisamente na longa e larga rua da pista e, ao se aproximar da praça de terra batida, percebeu de longe um movimento incomum de pessoas, todas curiosas para ver os bichos de um circo que acabara de chegar. Júlio não pressentiu qualquer espécie de ameaça, algo que pudesse interromper sua passagem por ali. Estava quase transpondo aquele trecho da estrada, quando, subitamente, um dos leões, até então adormecido, fatigado, exaurido pela longa viagem e, diga-se de passagem, faminto, levanta-se na jaula, percebendo com seu potente faro a passagem da caravana e solta um urro aterrorizante. Nesse instante, os animais da caravana de Julio dispararam a correr de forma desenfreada ao longo da rua, inclusive o seu  cavalinho pangaré, que só andava com a trava de mão puxada, arrancou que nem um carro de formula um, jogando o idoso senhor ao solo, machucando-o de forma vital, a ponto de ser socorrido e levado de automóvel por populares ao hospital da cidade. Passados três dias, Júlio não resistiu às lesões internas e veio a falecer combalido de fratura na bacia e costelas, além de perfuração do pulmão direito.
Esse triste e lamentável episódio aconteceu em meados da década de 1970, causando grande consternação a amigos, colegas e demais pessoas da comunidade local.