Zé Diabo “Figura lendária”! Ferrabrás: amigo da onça?

 

N’outra aventura de pescaria, quando normalmente se praticava também as tradicionais caçadas, pois se costumava levar os bons cães de caça, animais  que tinham absoluto valor sobre todos os apetrechos de caça, além de se prestarem naturalmente ao papel de guardiões do acampamento. Tinham mais valor inclusive, do que as espingardas de caça. Pois ferreiro bom era o que não faltava em Itapebi -, que o diga o nosso personagem Zé Diabo.

Zé Diabo, sempre em companhia do seu fiel amigo Juá, arranchou desta feita, na praia do Coqueirinho, num trecho muito respeitado do rio Jequitinhonha, onde a  maioria dos pescadores tinha um certo temor em pescar ali, principalmente à noite, por conta de um certo ‘peixão’ que volta e meia escorraçava os pescadores daquele local. O medo fazia parte da rotina dos canoeiros que trafegavam por ali.

Os pescadores mais experientes obedeciam a uma determinada regra da natureza. Era como se fosse uma espécie de combinação. Saiam à pesca sempre à  boca da noite, à meia noite e ao amanhecer. Era justamente o momento ideal, quando os peixes saem de seus esconderijos para se alimentar e se tornam presas fáceis.

Naquela época, meados dos anos 60, a fartura de pescados  era muito grande, além disso, não havia muitos pescadores, resumia-se a algumas dezenas deles. Alguns eram exímios arremessadores de tarrafas, como Juá.

Pescaram nos horários e locais de costume, sempre à noite e logo depois da meia-noite se recolheram. Acordaram então, às quatro e meia da matina para tarrafear em locais costumeiros. Quando o Sol estava a raiar, aconteceu um fato inusitado: o facão do Zé se soltou de sua mão, quando se preparava para cortar um pequeno galho que atrapalhava a pescaria e caiu n’água, num local próximo à margem do rio que não era lá tão fundo. Mas o medo do tal peixão o fez arregalar os olhos já esbugalhados antes de esboçar um mergulho à procura do tal facão de estimação, chamado por ele de ‘Ferrabrás’.

_Vamos lá Zé! Mergulha homem! Insistia Juá com o parceiro.

_Você não tem medo de fogo, nem de trovão. Vai ter medo de água?

Ao que o Diabo retrucou:

_Acontece que nessa água tem o peixão, Juá! E não é todo mundo que tem essa coragem não!

_Não me diga que você vai desprezar o seu facão de estimação. Seu companheiro de longas datas, por causa de uma coisa que a gente nem sabe se existe! Insistia Juá com veemência.

_Você está certo homem! Vou descer e vai ser agora.

E assim o fez. Fincou uma vara para suportar o peso do escaler contra a correnteza, no local onde o facão havia caído e por ela desceu. Mas antes de tudo tomou uma medida de precaução incomum: amarrou uma corda em sua cintura  e advertiu ao parceiro que puxasse rapidamente a corda, caso percebesse qualquer anormalidade.

Chegando próximo do fundo do rio, Zé se depara com uma situação jamais esperada. O tal facão ‘Ferrabrás’, estava fincado na lama com a ponta  pra cima, de modo que se a água não estivesse límpida, cristalina -, Zé não o teria enxergado e ficaria estrepado com certeza.

Esquivou-se então da enorme lâmina de aço e a apanhou pelo cabo. Deu um toque na corda e foi rapidamente içado a bordo pelo companheiro Juá.

Assim que recobrou o fôlego, o Diabo num ímpeto brutal  de cólera, ergueu o facão e ordenou ao parceiro que se aproximasse de um grande rochedo na margem  do rio. Saltou da embarcação e aos berros, começou o ritual macabro, queria cobrar sua vingança com o tal facão: - Então, é assim seu desgraçado, não é? Você estava me esperando pra me espetar e me matar, não é sua peste? À medida que xingava e excomungava o facão, batia com voracidade com o mesmo contra o rochedo que  do atrito, saía enormes faíscas. 

Sem entender absolutamente nada do que havia acontecido, o parceiro Juá quis interpelar a grotesca atitude de Diabo:

 _Você ta ficando doido homem? O que aconteceu pra você ficar furioso desse jeito?

_Esse desgraçado, Juá! Caiu n’água fincou o cabo no chão e  ficou armado de ponta pra cima, pra me espetar, pra acabar com a minha raça, esse ingrato, miserável, agora ele recebeu o castigo que mereceu.

E assim se fez, o Diabo preferiu arrebentar completamente o tal facão “ferrabrás” a permanecer com ele. Preferiu fabricar outro similar.