CONTOS EM CANTOS
 
Se é história, lenda ou ficção, não sabemos. O certo é que esse ‘causo’ faz parte do folclore de Itapebi.
IHistórias que os mais antigos contam.
 

Ao que se sabe, segundo os antigos moradores, Cachoeirinha constituía-se numa Vila ribeirinha, pertencente na ocasião ao município de Belmonte, situada à margem direita do rio Jequitinhonha, que serviu desde a época dos primeiros colonizadores como entreposto comercial, pois  se localizava justamente no limite da parte navegável do baixo Jequitinhonha e o chamado ‘rio de pedras’, que se referia à parte não navegável ou praticamente imprópria para a navegação, pois as embarcações da época eram de grande porte, canoas que comportavam até 120 sacas de cacau, comparadas com as atuais.

A Vila prosperou, com a chegada de pessoas influentes que adquiriam com facilidade, a patente de “coronéis”; grandes proprietários rurais naquelas imediações, atraídos pela atividade extrativista de ouro e prata  e pelo suntuoso comércio de especiarias vindas de Salvador via marítima até a cidade de Belmonte, pelos navios do Loyde Brasileiro, sendo mais conhecido o ‘Itimberê’,  onde eram embarcadas nas enormes canoas a remo de voga, que subiam o Jequitinhonha, indo aportar na Vila de Cachoeirinha, onde deixavam  mercadorias como tecidos, jóias, combustíveis, sal de cozinha, açúcar, feijão, arroz, rapadura, dentre outros gêneros e voltavam a Belmonte com mercadorias produzidas no Vale do Jequitinhonha, como artefatos em couro, fumo de rolo, cachaça, banha de porco, manteiga, queijo, requeijão, panelas e potes  de barro, sabão, balaios, cestas, carne de sol,  charque, esteiras, dentre outros.

Com o tempo, a vila passou a sofrer constantes ameaças naturais, em função do relevo muitíssimo acidentado do terreno onde se localizava devido principalmente aos deslizamentos de rochas que provocavam pequenas avalanches de terrenos sedimentares. O temor fazia parte da rotina dos moradores daquele local. Havia uma enorme pedra localizada justamente em situação que, se desprendesse do terreno acabaria esmagando parte da vila, principalmente a casa de uma das pessoas mais influentes do local.

Tal situação de emergência levou essas pessoas a mandar confeccionar uma enorme corrente, super reforçada, que parecia mais a corrente do portão do inferno. Acabaram por atrelar essa tal corrente à enorme pedra, que permaneceu por mais de cinqüenta anos a suportar a tal rocha, dando um certo alívio aos moradores da vila.

Com o tempo, já em meados da década de 1970, a vila declinou a  ponto de a grande maioria dos moradores a abandonar quase que definitivamente, restando apenas alguns moradores que resistiram no local por conta de alguma atividade lucrativa, como a pesca, por exemplo. Principalmente após a remoção da imagem de Nossa Senhora da Conceição, ocorrida em 1968, trazida de Portugal pelos jesuítas da Ordem de Jesus, em meados do século 18, cuja capelinha que a comportava encontrava-se em ruínas, sendo instalada definitivamente na cidade de Itapebi, que já havia sido emancipada politicamente de Belmonte em 1958. Na ocasião, registrou-se uma grande festa religiosa, a procissão fluvial, com imenso cortejo em canoas a remo, durante todo o trajeto rio abaixo até a praça da feira ‘rabo da gata’ em Itapebi, tendo sido apresentada a toda a comunidade católica pelas estreitas e íngremes ruas da cidade, até a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, especialmente construída  e inaugurada a 14 de agosto de 1965, onde seu trono ‘altar’ a esperava, para reinar em  sua   morada definitiva.

Atualmente, a vila de Cachoeirinha encontra-se submersa, com a construção do lago artificial para geração de energia elétrica pela Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL.

Ah! A tal pedra acorrentada?  Ninguém sabe do paradeiro. Nem mesmo quem nos repassou essa história. Sabe-se lá se não foi apenas uma ilusão de ótica daqueles pobres coitados, acostumados a viver sob o regime impactante do medo e da ameaça constante da natureza? Ou ainda se não é uma história da “carochinha”. Ou ainda se não foi obra da imaginação fértil dos famosos contadores de ‘causos’ daquele local, como Paxé, Dedé, Nolai, Bastião Pinheiro, Camilinho, dentre outros...?

  Antigos Canoeiros do Rio Jequitinhonha

O histórico e lendário rio Jequitinhonha possui 1.082 km de extensão e aproximadamente 800.000 anos de existência. Percorre 886 km em solo mineiro e 196 km em terras baianas, constituindo-se numa das mais importantes artérias fluviais do Brasil. Inicialmente utilizado pelos canoeiros para acesso ao nordeste de Minas Gerais, este rio perfaz cerca de 450 ininterruptos anos como via fluvial.

Os antigos canoeiros do rio Jequitinhonha, tornaram-se, na época em que este rio era o único caminho e a canoa praticamente o único transporte, nos principais precursores da região, ao contribuir para a disseminação de povoamentos e por influenciar no econômico e social, em grande parte do vasto território do Vale do Jequitinhonha.

Em 1850, enquanto a navegação entre as longínquas Araçuaí, em Minas, e Belmonte, na Bahia, grandes pólos comerciais da época, era relativamente intensa, não havia tropeiros que não soubesse dos seus caminhos. Para Araçuaí, convergiam mercadorias procedentes de localidades a 50 léguas de distância. Belmonte recebia produtos manufaturados e industrializados, alguns importados da Europa e África. Entretanto, entre os fins do séc. XIX, e o início do séc. XX, a navegação declinou-se consideravelmente. Porém, em 1920, retornou com grande ímpeto. Mas, as sucessivas aberturas de estradas com o crescente emprego de tropas de animais cargueiros, fadavam a navegação ao declínio.

Todavia, até meados do século XX, inúmeras mercadorias e distintos passageiros, embarcados em grandes canoas, navegaram por longos trechos deste rio. A navegação no Jequitinhonha declinou sofrivelmente, é verdade! Contudo, jamais deixou de existir!

Ainda que modesta, a navegação neste rio sempre haverá, porque ser canoeiro é a mais significativa essência da alma do barranqueiro do Jequitinhonha, é da raça, está no próprio sangue... É histórico, cultural!

Tempos em que a navegação teve grande importância econômica, a designação canoeiro tinha três básicas. Identificava aqueles que se utilizando de imensos toros de madeira de lei, construíam canoas, aos que nelas navegavam e também quem as possuía. Entre os canoeiros navegantes havia os proeiros e os pilotos. Os proeiros remavam na proa e no centro da embarcação. Os pilotos, remavam na popa, as direcionavam, respondiam pela embarcação, mercadorias, pousos, destinos, e passageiros. 

As antigas canoas que navegaram no rio Jequitinhonha, eram construídas a partir de centenários caules de vinháticos, putumujús, oiticicas, ipês, e outras árvores que na atualidade estão quase extintas, tinham uma vida útil relativa à sua conservação e podia durar por mais de 40 anos.
A foto abaixo, retrata um tempo glorioso da navegação no velho Jequi. Canoas de grande porte ancoradas no porto do ‘Rabo da Gata’, local de abastecimento do comércio local e de transporte de passageiros para a Estrela do Norte e para  todos os recantos do vale.

Atualmente, a maior canoa do Jequitinhonha,    é a canoa Suíça

 
 

II, com 20 metros de comprimento, 1,2 m de largura e 0,80 m de altura. Construída com o caule de uma monumental árvore, que foi doada ao município pela empresa Eric Heagler e Outros e encontra-se exposta à visitação pública na Praça     do Havaí na cidade histórica. Esse monumento histórico e cultural do município tinha capacidade para transportar até 120 sacas de cacau de 60 quilos cada. Maior que esta, só se tem notícia da canoa Suíça I, que já não existe. Entre os antigos canoeiros do Jequitinhonha, uma sagaz tradição estabelecia que durante a navegação, tudo que estivesse ao alcance da corda da proa da canoa, poderia ser subtraído, furtado ou roubado, sem que isso fosse necessariamente ilegal. Então, preventivamente, ribeirinhos evitavam implantar árvores frutíferas, lavouras e hortas, muito próximas à margem do rio.        Uma interessante particularidade dos canoeiros refere-se ao fato de optarem em ficar excessivamente à vontade... Especialmente os proeiros, que prevenindo assadura entre as pernas, decorrentes do ir e vir com a vara para impulsionar a embarcação preferiam vestir apenas um camisão, e nada mais! Este conhecido costume fazia com que as lavadeiras, a ver tais navegantes, se escondessem no mato até que passassem. Por sua vez, os canoeiros evitavam transportar mulheres e crianças. Entretanto, determinados proprietários rurais ribeirinhos, exigiam que ao chegarem às proximidades da Casa-Sede das fazendas ribeirinhas, os canoeiros se compusessem. Sem dúvidas, desses fazendeiros, muitos contavam com o infalível apoio da famosa carabina do papo amarelo!

Navegando no mesmo sentido do curso do Jequitinhonha, quando o esforço para navegar é menor, os canoeiros, ritmados pelo ranger da volga, costumavam entoar o beira-mar, sua tradicional cantoria. Houve inclusive quem assegurasse, que ao ouvir tal melodia, algumas mulheres tornavam-se suscetíveis a seguir com eles.

Remando no sentido contrário ao curso do rio, quando grande esforço era exigido, os proeiros firmavam uma das extremidades de uma grande vara nas pedras ou no leito do rio, e com o auxílio do músculo do peito, a empurravam pela extremidade superior, fazendo com que a canoa se deslocasse, viabilizando a navegação. Porém, muitas vezes, calos e feridas no peito, provocados pela ponta da vara, os afastavam temporariamente da atividade. 

À tardinha, preferencialmente aportados em ilhotas, após o desembarque dos passageiros, os canoeiros desembarcavam os porcos e davam-lhes milho para amadrinharem-se. Em seguida, descarregavam parte das mercadorias, armavam a barraca e a cobriam com o toldo, que servia à embarcação como vela. Acendiam o fogo e punham-se a pescar, até que chegasse a hora do jantar. Sempre muitos gulosos, davam preferência aos marchantes que mais lhes disponibilizassem mantimentos para a viagem. Antes de dormir, os proeiros esquentavam toucinho para usar nas feridas do peito. “Dia seguinte, caso algum porco se desgarrasse, seria caçado, morto, e salgado. Peixe no Jequitinhonha era muito farto, não tinha preço, não valia nada... Salgávamos e trocávamos por cachaça durante os pousos”. Esclareceu um ex-canoeiro.A viola nunca faltava às viagens. À noite, tocavam e cantavam o shottisch, a polka, o baião, e o coco, este último, um ritmo popular do nordeste brasileiro que fez muito sucesso. Os canoeiros também cantavam uma remota cantiga de saudoso refrão, que rememorava a histórica Vila de Cachoeirinha, fundada nos anos 1700, e o extinto Porto do Italiano, donde partiam as canoas mineiras com destino a Bahia, ambos, atualmente submersos nas profundezas do lago artificial criado por uma hidrelétrica instalada no baixo Jequitinhonha baiano, cujo refrão, assim dizia: Adeus, Cachoeirinha; Adeus, Voltinha do Italiano; Não sei quem ficou para trás; Só sei que os meus olhos seguem chorando!

Grande enchente de 1979

A vida de canoeiro era muito difícil, incerta e arriscada. O pagamento pelos seus serviços era insuficiente e as suas mais significativas compensações acabavam sendo o prazer do convívio com o rio Jequitinhonha, o companheirismo entre os embarcadiços, a amizade firmada com os ribeirinhos, e principalmente, a renovada alegria do retorno, qual, parecia compensar todos os esforços, sacrifícios e sofrimentos das viagens!

Os antigos canoeiros costumavam expressar sua paixão, amor ou interesse, através de uma pequenina e delicada flor, de suave cor lilás, conhecida como flor de canoeiro. Mas por fatalidade, esta dócil plantinha que só vegetava exclusivamente na área inundada pela hidrelétrica, foi extinta! No entanto, pai algum desejava ver sua filha namorando ou casada com canoeiro, mesmo que canoeiro ele fosse. Daí, quando encontrada a flor de canoeiro em casa, alguém da ala feminina, impreterivelmente, sofreria surra ou castigo.

Um ex-canoeiro, piloto, conhecido como ‘Tidão’, comentou que em março de 1942, durante uma das memoráveis cheias do Jequitinhonha, resolveu, apesar do alto grau do rio, partir com destino a Belmonte. Em companhia de um proeiro (remador de proa), embicou a canoa no sentido do curso do rio, e seguiu com muitas mercadorias, além de dois passageiros. 

O intenso volume das águas fez com que o seu escaler flutuasse rapidamente  rio abaixo. Mas, ao chegar às proximidades do encachoeiramento conhecido como Prisinganga, a intensa turbulência do rebojo provocado pelas águas desse temido encachoeirado, somado à sobrecarga da embarcação, fizeram com que o piloto perdesse o controle da canoa. Ã deriva a embarcação rapidamente chocou-se a duas grandes pedras do leito do rio, lascando-se. As mercadorias afundaram. O piloto e o proeiro pularam rapidamente para uma dessas pedras. Um dos passageiros agarrou-se a um grande fardo de alho, e boiando foi-se, até que por sorte, adiante esbarrou nos galhos de uma árvore que tombou para o rio. Mas o outro passageiro, lamentavelmente menos hábil, sequer teve o corpo encontrado! 

Um ex-canoeiro, construtor, Sr. Agnelo José, relatou: “em 1929, peguei uma empreitada para fazer uma grande canoa, numa tremenda boca de duro, mata densa, hostil... Depois de mais de 200 dias de serviço, terminamos, a emborcamos, cobrimos com folhas de palmeira, e escondemos o material de trabalho debaixo dela. Dias depois, retornei para pegar as ferramentas. Quando fui pra meter a mão, dei de cara com uma cobra surucucu-de-fogo, de todo tamanho! Com o susto, saltei pra trás, peguei a chumbeira, e sentei fogo sem dó! Mesmo baleada, ela ainda tentou me pegar! Corri, peguei um pau, e jurei: sua infeliz malfazeja, de hoje em diante você não ofenderá nem o batizado, nem o bicho pagão. E tome pau na testa, tome pau... A monstra mediu 11 palmos e quatro dedos. Era a figura do cão... Cavei um buraco no chão, joguei esse “diabo” dentro, e tome terra na cara... Se um trem desses pegar um de nós, não tem doutor que dê jeito. Só Deus! Nesse dia, foi quem tomou conta de mim”.