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Até o final da década de 1970, viveu por essas bandas um casal excêntrico de mascates: a cafusa Miguelina, autentica representante da miscigenação afro-guarany, figura que causava espanto aos guris da época, tanto pelo seu jeito bravo de falar, como pelo seu conturbado comportamento. Volta e meia metia-se num ‘arranca-rabo’, bastava cismar com alguém ou com alguma coisa que não lhe agradasse, que ‘rodava a baiana’ literalmente. Doida ao extremo, não apartava de um punhal por entre as vestes ciganas, de quando em vez puxava-o pra fora e riscava-o no chão. Até parece que estava a protagonizar a atual música do ‘risca a faca’. Além disso, Miguelina era cafetina, dona de bordel, costumava escorraçar os moleques curiosos que chegavam perto da zona:
- cresçam e apareçam seus vadios. Num quero pobrema cum a puliça!
João Grosso -, esse tinha um comportamento mais aceitável para os padrões sociais da época. Era um idoso senhor de cabelos grisalhos e jeitão de mexicano, usa a geralmente chapéu de abas largas, alpercatas de couro e camisa de mangas compridas para proteger-se do Sol. Nas suas estadas nesta cidade, pernoitavam sempre no bordel, onde João Grosso se divertia por horas a fio no carteado (baralho) com os amigos, porém só jogava apostado. Como todo bom mascate, gostava de chamar à atenção do público com melodias e bordões próprios:
“Venha, venha, venha, freguesia,
Com o dinheiro e a vazia,
Quem tem dinheiro compra,
Quem não tem espia,
Peguei na perna da veia,
Pensando que era da fia,
A da veia era cascuda
A da fia era macia,
Venha, venha, venha freguesia!
Além de matreiro e esperto, era também talentoso para o comercio, para chamar à atenção dos fregueses, dava origem aos diversos produtos ligando-os a lugares conhecidos, assim bradava:
- Ainda tem banha de capivara da lagoa do pego! Boa pra reumatismo, dor de cabeça e dos de ouvido.
- Tem fumo especial de Almenara, é papa fina e mingau sem caroço! Venha, venha, venha!
Tem coco seco lá de Mogiquiçaba pra comer com rapadura e farinha de tapioca!
Tem zuleiga de Itarantim. Pinga melhor não existe!
N’outras ocasiões era a ‘molecada perdida’ da época que hostilizava a ‘bendita’ Miguelina, com melodias um tanto características:
“Jundiá não tem escamas,
Traíra não tem pescoço,
Miguelina embaixo da cama
Esperando João Grosso”.
Ao que a bruxa bufava de raiva, dava gritos de apavorar até os defuntos, dizendo:
- Debaxo da cama o quê, suas peste, fio da disgraça, eu espero meu véi é in riba da istêra, proque nóis num drome em cama. Cume que nós vai carregá cama pá lá e pá cá?
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Apesar dessas sandices, a comunidade aguardava ansiosa, tanto a chegada quanto a partida desse casal, pois era momento de expectativa, quanto as novidades, bem como as notícias que eles traziam de toda a região do Norte de Minas e Baixo Jequitinhonha. Eram figuras muito admiradas. Singravam montanhas, vales e riachos inicialmente em pequena caravana animal e depois em veículos de transporte coletivo, muito rudimentares e mal-conservados, devido às péssimas condições de tráfego que as estradas ofereciam. Era comum se demorar uma semana para percorrer o trecho que liga Itapebi a Belmonte, por exemplo.
Num desses dias em que o ‘banzo’ tomava conta de ser, ouvimos os lamentos de nossos personagens, assim por volta do meio-dia, exaurida e fatigada da viagem, pois acabara de chegar:
“Num viajo mais nesse ônibi de Cassassá,
A gente pra ir pra Barriolanda,
Tem que levar fejão, café, rôis, sucre... tudo!
Nóis tem que sartá toda hora,
Pra empurrá e disatolá o mardito!
Isso num é vida.
A vida desse casal era de fato muito hostil. Apesar de terem tido um filho (Zé de Miguelina), esse não os acompanhava nessas andanças, pois tinha família e residia em Itapebi, onde tinha um pequeno comércio.
Com o passar implacável do tempo e debruçados com o peso da idade, definitivamente fincaram raízes nas paragens do povoado de 64 (atual Eunápolis), onde montaram um pequeno e variado comércio à beira da rodovia BR-101. Era comum os comerciantes abrirem letreiros na parede frontal do estabelecimento, especialmente com nome de santo e com a tradicional frase “Secos e Molhados”.
Em meados do ano de 1978, morando temporariamente com seu filho em Itapebi, pois encontrava-se bem velhinha e adoentada, muito debilitada fisicamente, Miguelina foi levada às pressas para 64, onde permaneceu internada com complicações cardíacas. Passados alguns dias de internação e percebendo que o pior poderia acontecer, pediu à sua nora Anacirema, que viesse até Itapebi buscar uma sacola contendo um travesseiro, que estaria dentro do seu armário, pois iria morrer e queria ser enterrada com ele em Itapebi, no que foi prontamente atendida. Passados mais alguns dias, tivemos noticias da morte de Miguelina. Sua vontade foi satisfeita. Foi sepultada no cemitério municipal de Itapebi. Mas um fato sobrenatural estava acontecendo com seus familiares desde o dia do seu sepultamento. Os parentes próximos a ela estavam sendo perturbados. Todas as noites o fantasma de Miguelina aparecia para eles e ninguém entendia a razão disso. Passados três dias, não mais suportando tanta aflição e perturbação, sua nora Anacirema explicou então a situação ao coveiro da cidade na ocasião o Sr. ‘Menininho’, que relutou mas acabou atendendo ao pedido da sofrida senhora. Abriu então a sepultura de Miguelina e retirou a sacola contendo o tal travesseiro e o entregou a Anacirema. Ao abrir o tal travesseiro, o espanto foi geral. Esse estava cheio de dinheiro -, cédulas antigas que já não tinham qualquer valor, pois já estavam descapitalizadas e recolhidas há muito. Miguelina julgava que fosse o seu tesouro, a ponto de incomodar tanta gente. Havia cédulas que estavam fora de circulação há mais de 20 anos, tal foi a decepção da família.
Com a amargura da solidão decorrida pela perda da inseparável amada, pouco tempo depois, João Grosso viria a falecer em Eunápolis, onde já residia a certo tempo, em decorrência de acidente vascular cerebral. Tendo sepultado naquele município. |