UMA IMPREVISIVEL GALINHA |
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Ao iniciar a trabalhar na Ceplac no final da década de sessenta, fui designado para Itapebi. Sendo filho de Belmonte me senti em casa. E não deu outra: aí fiz amigos, uma amizade por Pedra Branca e, da vivência laboral como extensionista ceplaqueano, “passagens”, que de alguma forma marcaram a experiência.
Nossa área de atuação abrangia a Ventania, zona que para penetrá-la em seu miolo, tínhamos que passar em frente ao comércio de Joaquim Lapa, conhecido comerciante e cacauicultor português.
Certa feita, programada visita, eu e o Jones – motô novato do Escritório; o outro era o Hermes – rumamos para lá. O jeep Willians capota de aço subia firme a suave ladeira de cascalho de repente uma robusta galinha no caminho, vapt, estatelava-se e jazia junto ao pneu traseiro do carona.
Com o carro parado no meio da pista, num passo de mágica, olhamos um para o outro, depois os sentidos na avenida de casas onde negociava o português, e, não havendo um pé de pessoa, em segundos eu abri a porta do veículo e, rapidinho como se rouba, socorri a vítima.
Um pouco assustados com o ocorrido, mas conscientes da impossibilidade de evitar o acidente, seguimos viagem.
Fim de percurso, serviços prestados, convicção de não flagrante, e o crepúsculo vespertino a descer, retornamos. No trajeto, como anteriormente havíamos combinado não procurar o dono da falecida, Jones então:
– Como é bicho, qual o lugar do velório?
– Isso aí é com você; o que der a gente racha – respondi.
Chegamos a Itapebi escurecendo e visando uma preliminar à vigília, saltei para tomar “uma” no Bar de Velho, bar que do alto de sua estrutura palafítica, descortinava uma bela visão do Jequitinhonha. O Jones seguira para providenciar o funeral da penosa e guardar o veículo, ao retornar, irreverente, foi logo:
– Diga aí Velho, bota uma da boa e caprichada pra mim, aliás, uma caprichada, uma loura bem suada e um copo. – e continuando – Você também está convidado para comer a Ângela Maria, e vai ser aqui mesmo em seu recinto.
Já que o caso estava colocado no mato, tentei uma explicação ao Velho e a presentes de sua inseparável clientela. Preocupado em esconder o x da questão, por estar na jogada uma viatura oficial, me enrolei todo e o Jones notando o embaraço, interveio: |
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– Peraí bicho, manda essa preocupação pro beleléu! Olha, já convidei alguns amigos inclusive o nosso Flides. Menino! a cantora está cevadinha da silva, aposto que foi criada a pão-de-ló pelo portuga! Mandei fazer à “molho pardo” com uma amiga minha do brega de Cavalo Gazo, lá em cima no Sempre Verde.
Walflides (o Flides) era um dessas amizades retada, porreta, bom farrista como ninguém. Os convidados chegando, o falatório comendo no centro, e eu, já meio barro meio tijolo (mas ainda encucado), me dirigi ao Jones e:
– Rapaz! vamos devagar com o andor; esse negócio com transporte da Ceplac... Será que nos viram?
– Qualé! a assistência foi rápida como manda o figurino. Se algum gaiato ficar querendo saber demais, a gente diz que foi presente de um fazendeiro do Fecha.
Ao condolente ato, compareceram umas dez pessoas, e entre rezas, oferendas, a do santo, a despenada não sobrou pra quem quis. Só que, com a incorrigível discrição do Jones, no outro dia do Rabo da Gata ao Havaí e adjacências, se sabia do banquete funerário.
Antes, estando nas bandas da Ventania, costumávamos aportar para um papo sobre cacau, e, persuadi-lo a mutuário nosso; após o acidental lance galináceo, embora o convencimento de nenhum espião pelas paragens, ficamos receosos de encarar o português.
O tempo passou. Pintava na ocasião uma orientação referente à – se não me falha a memória – um alargamento do crédito do penhor e do investimento. Nesse período, abundava o dinheiro para a cacauicultura e não havia a famigerada Vassoura de Bruxa. Sim, e deveríamos fazer a maior divulgação possível.
Seguindo o Calendário de Visitas, apesar da pulga atrás da orelha chegamos como nada houvesse acontecido, e como de praxe recebidos educadamente. Mais ou menos uma hora de conversa, o objetivo cumprido, pronto, chegara o momento de zarpar. Comemorávamos a ausência de sinais testemunhais quando o seu Joaquim, com toda a calma do mundo, insinuando, interrogou-nos se havíamos há uns dois meses, passado por ali. Foi uma ducha fria, e naquela de “sim, sim, não, não”, de “não houve jeito”, confessamos. E com a tranqüilidade redobrada, explicando ser a cantante pertencente ao administrador, nos fizera a cobrança – preço de mercado da época – para restituir ao proprietário.
Cobrança essa que, para um velório tido como quase “cif” (despesas só as diretas com a defunta), servira para as brincadeiras e gozações dos veladores nas outras e outras farras e, sobremaneira para dirimir um receio configurado por uma relação quebrada provocada por uma imprevisível galinha. |
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