DE UM AMIGO MAIS CHEGADO
 

De um desses amigos mais chegado, a interrogação fora curta e grossa:
- Bicho, por que você queria tocar fogo no Brasil?
Do outro lado da linha, eu:
- Pô, amigo; não estou entendendo! Eu incendiar o meu país!?
         - É sacanagem, mas é que em sua recente crônica “E note e anote”, ao dizer num trecho da possibilidade de o Brasil sair da condição de subdesenvolvido, você tacou lá “...acendermos do subdesenvolvimento...” sem aquele essezinho que cabia ali antes do cê, e aí fiquei na indecisão: se aceitar as regras do português vigente ou se já atuava a badalada reforma ortográfica.
         Embora meio sem jeito, levei na de humor e:
         - Valeu a observação companheiro, e com certeza outros ‘errões’ e errinho devam existir. Sua advertência foi valiosa porque doravante sei que as minhas escrevinhações têm um leitor garantido. Entenda: justificar o injustificável é impossível, mas eu podia como fazem em documentos oficiais as nossas autoridades para se safarem de uma transação penosa, evocar a famosa desculpa do “lapso” e pronto, estava feita a ressalva.
         - Qualé lapso qualé nada, cara! Está cheio de sutileza, filosofando é? Rapaz, esse poder esdrúxulo, especialmente dos metidos na política, de meter a mão no dinheiro da gente, já relaxou tanto que não se respeita mais coisa alguma, é na tora, na mão grande mesmo.
         - Não, não, em absoluto. Não é nada disso. Realmente esse tipo de assalto aqui no Brasil, está escancarado sim, mas como estamos tratando de um erro ortográfico que me coloca abertamente à semelhança de Nero, me veio lembrar os artifícios burocráticos usados pelos políticos para saltarem de banda e continuarem na deles.       

O papo, pela pertinência do assunto, natural que se pendesse para o NAOLP, o chamado Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Disse-lhe então a respeito, da minha posição de ‘coluna do meio’ com duas modestíssimas opiniões. Uma ia ao encontro do Acordo, visto facilitar a vida dos que maltratam como eu, a “última flor do Lácio”, a exemplo da retirada daqueles dois pontinhos em cima do u que chamamos de trema, e a outra, seguindo o argumento de alguns renomados mestres, contrapõe a primeira, porquanto o custo em confeccionar novos livros, dicionários etc., parece ser alto e de esperada demora; e concluía lhe dizendo que para mim, como useiro e vezeiro do genitor –versão eletrônica –de nossos conhecidos mamíferos quadrúpedes, não deixará de ser um suplício.    
         Convicto socialista, o meu amigo, depois de ressaltar as armadilhas pregadas por nossa língua com palavras de pronúncia e grafia quase iguais e de sentido completamente diferente, apesar de se mostrar em dúvida sobre a questão da individualidade cultural, não titubeou em defender a igualdade linguística(olha aí o uzinho sem o trema), sobretudo, por ser um possível começo das nações africanas resgatarem, segundo ele,  um enorme déficit social causado por Portugal e Brasil.
         Não poderíamos esquecer as amenidades, e assim, as piadas com os portugueses, o “golo” deles – um aportuguesamento do inglês “goal” –, não deixaram de faltar. Na despedida quando mais uma vez eu agradecia-lhe pelo reparo de uma letrinha ter me imputado o título de incendiário, espirituoso como ele só, fechava com essa: “Bicho, sabe que você tem certa razão. O Brasil não, mas se incendiássemos a maioria dos políticos, nosso país seria outro. Pode crer. E bem melhor”.