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À batida do gongo comecei a despertar.
Estava diante da televisão e talvez influenciado pela violência de nosso cotidiano, assistia a uma verdadeira luta de boxe. De tão real, o sonho para mim não era sonho: o rinque, os boxeadores, tudo enfim era uma perfeição.
A categoria era peso-pesado e um detalhe: não havia platéia porquanto de exclusividade para especialista, para gente iniciada. Vi nitidamente o ‘parrudão’ aplicar uns três golpes baixos e o revide do ‘parrudinho’ sem titubear. Foi quando os sparings e treinadores dos dois pugilistas bradaram unissonantes que, embora não houvesse público presente, a luta estava sendo transmitida para todo o país e via satélite para o mundo. “Escutem: a falta de equilíbrio emocional, e o não seguimento das normas para pugilistas categorizados como vocês, só fazem desqualificar as artes marciais”, completaram a advertência.
O anunciado de que estavam sendo mostrados ao contrário de os acalmarem, piorou a situação. Pareciam enfurecidos e literalmente dispostos a transgredir as regras. Um queria ser melhor do que outro a qualquer custo. Foi assim que no clímax da contenda aconteceu o incrível: eles apelaram para as agressões verbais. Um disse me disse dos mais condenáveis, mas como estou acostumado com as surreais ocorrências daqui... Recordo perfeitamente o ‘parrudinho’ dizer pra o ‘parrudão’: “Escutas ó meu, podes ser bom de briga, mas melhor do que eu, jamais. Não vês o apoio da rua a mim? E sabes muito bem que a voz do povo é a voz de Deus. Por isso exijo respeito, e tem mais: como ages, estás destruindo o Pugilismo Brasileiro”.
Encerrada, a indignação com o empate dado por sua |
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excelência, o árbitro, fora quase geral. Ao sabor do protesto popular inconformado com o zero a zero, de imediato o repórter desenvolveu uma pesquisa. O resultado não foi aquela maioria absoluta, mas os pontos pela maneira de se comportar no tablado com um gingado à brasileira foram de suma importância para a vitória do ‘parrudinho’. Outro fator se deve a sua superioridade no item bate-boca, dando de goleada no adversário. A prova está no suficiente número de entrevistados afirmando ter havido nocaute nesse fundamento.
Eu cá da poltrona (não, para ser sincero, de um macio cadeirão) e naquela de uma viagem evidentemente indecifrável, e como óbvio sem ter dado entrevista, observei cruzados e jabs de parte a parte. Mas achei que o ‘parrudão’, em consonância com a opinião pública, foi nocauteado, só que, apesar de cambaleando –e pelo fato das câmeras em cima –suportara a contagem do juiz.
Os rounds foram tão sensacionais que aficionados e renomados mestres desse esporte no mundo afirmaram ter sido um momento impar na história do boxe brasileiro, surgindo inclusive uma forte corrente evolucionista aprovando o confronto verbal e que já pensam até num Projeto de Lei em defesa dessa inovação à regra do pugilismo.
Com aquele espreguiçamento característico fui retomando a consciência, ficando bem gravado a opulência do cenário, a beleza da cor de ébano do roupão, a igualdade das luvas... O rinque com um vistoso piso verde e de cordas amarelas parecia até simbolizar a grandeza do Brasil. Sim, o marketing institucional esportivo de um painel eletrônico anunciando para breve outras duas lutas em outros dois ambientes de poderosa e idêntica sofisticação também muito me chamou a atenção. |
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