UMA SENSAÇÃO MOMENTÂNEA

E aí o inusitado: não havia os componentes no palco. Cadê os músicos, murmuramos. Segundos depois, com o natural aguçamento da audição, percebemos que o som originava de um nível quase ao solo e, lá a banda estando, o mistério enfim desvendado.   
        Confesso, devido à descontinuidade auditiva, que estava meio despreparado para aquela riqueza musical; preocupação logo amenizada ao harmonizar-me com as lembranças de Belmonte, onde, possuidora de duas tradicionais filarmônicas, tive a oportunidade do conhecimento de música semelhante. De lá, e por isso, valsas, marchas, óperas e operetas, e especialmente os dobrados, o nome Beethoven, a ópera “O Guarany” de Carlos Gomes, muito me ficaram familiarizados. E fui afinando os ouvidos.
Veja que, como essa qualidade musical – acredito – não tenha até então se tornado mais íntima do brasileiro, taquei no início, me referindo ao aguardo do espetáculo, a expressão “começo solene”. Como se percebe, erroneamente, porque a exibição da Orquestra Sinfônica da UFBA ( o que pese o modo negativo  de ser patrocinada pela Coelba do Grupo Neoenergia só por envolver uma compensação fiscal e para tentar justificar o salgado preço da energia elétrica vendida, portanto sem uma conscientização patente) faz parte do projeto “Concertos Populares”, do Ministério da Cultura através da Lei Rouanet. Assim, embora antecedendo o ainda estranho “concertos”, o “populares” desautoriza a pompa.
Bom, o show chegara ao fim. Saímos entusiasmados e felizes da vida. No caminho pra casa a minha mulher lamentou: “Oh! Faltou “Aquarela do Brasil”!”. Concordei lhe dizendo que um clássico como esse de nossa música popular não podia ficar de fora. E chegando disse-lhe que esses instantes, principalmente para mim que sou no meu pessimismo um crítico contumaz de um dos nossos dois “brasis”, são inesquecíveis. E que ali na praça me veio estar vivendo o outro, o desenvolvido, pelo menos, uma sensação momentânea.
 

Passando dos quinze minutos me julguei chegando atrasado, haja vista o evento ter sido marcado para as vinte horas em ponto.
Errôneo julgamento. Acompanhado da esposa me posicionei ao lado de um ambulante de cerveja, local de suma importância para nos superarmos do desgaste da espera e para compreender não se tratar de nenhuma pontualidade britânica. Entendeu? Aguardamos, portanto tranquilos o começo solene.
         Apesar do atraso no dia 18 de setembro a Capitania dos Ilhéus fora premiada com uma apresentação ímpar: a da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia. E vivera ali na Praça Dom Eduardo, no ar livre – e na “boca” também – momentos significativos. Lotada, o chão da praça foi testemunho do ambiente de emoção. De pé e de quebra com a visão –pela aglomeração – ligeiramente oblíqua do palanque, fomos obrigados a mais usar o sentido auditivo.
         Fugitivos da imposição dos filhos de sonoros “...na boquinha da garrafa...”, “...mexe, mexe mainha...” e outras pérolas, o desconforto em nada perturbava quem se propusera como nós, curtir uma boa música. Abro um parêntesis para afirmar, respeitando o gosto das gerações –em sua maioria – atuais, que nessa questão sou do tipo eclético, ouço todas, só que, cada estilo em sua propícia ocasião. Ok? Ademais, o grande Caymmi, já dizia, aludindo um nosso originalíssimo gênero musical, que quem não gosta de samba (do bom, claro) bom sujeito não é, é ruim da cabeça e doente do pé... Tá ligado?
         Que Beleza! Com o prelúdio da Filarmônica Capitania dos Ilhéos (com “o” mesmo), uma sociedade ilheense empreendida na formação de jovens músicos e na arte, dava partida a esperada tocata. Nesse instante como a nossa condição de espectadores ficara prejudicada pelas muitas cabeças à frente, intuitivamenteaos primeiros acordes, nos pusemos nas pontas dos pés.