DOIS COBRAS

 

          Há algum tempo papeando com o colega ceplaqueano Fernando Del’Rei (Kojack) a respeito de Ronda, uma de suas paixões musicais,  me disse ser de Paulo Vanzolini a sua letra. E acrescentava em tom de brincadeira que o letrista, como Argôlo do Cepec (Centro de Pesquisa do Cacau), era um especialista em cobras.
         Lá se vão se não me engano, mais de quinze anos, época em que Antonio Jorge Suzart Argôlo – técnico agrícola e estudante superior de biologia –, começava a dar corpo aos seus estudos sobre serpentes.
         Com ele conheci de sua coleção, a temível cascavel, um exemplar lhe doado pelo então agricultor ilheense Rui Tatu e que vive em região seca e pedregosa, portanto, diferente da das fronteiras Cacaueira, referência de sua pesquisa. A ele indagando a propósito do veneno dos ofícios, pavor de meio-mundo desconhecedor, explicara-me tratar-se do suco gástrico e que servia –como espécimes carnívoros –, na imobilização e decomposição da presa como alimento.  Também na condição de quase um ofiófobo confesso, foi bom saber que cobra não ataca o humano simplesmente, ou seja, não possui a tão mal falada agressividade; só quando ameaçada em seu ambiente.
Se tal conhecimento houvesse a mim chegado antes, não interromperia, na qualidade de extensionista da Ceplac, certa visita a uma propriedade agrícola localizada na estrada Ilhéus/Itabuna. No meio do cacaual, mato acima do peito, ao ver passar junto aos meus pés uma baita de uma cobra não titubeei: “É um Pico-de-Jaca. Vou me picar. Só volto depois de limpa”. Por muito que o administrador procurasse me convencer com a conversa de 20 Papa-Pintos (ofídios não venenosos) postas pelo proprietário na roça para comer as chamadas peçonhentas, não recuei, mantive a posição.

         Outrodesses    melodramáticos  casos envolvendo

 

serpentes se deu com o belmontense Gilberto. Chegado de Belmonte para uns dias “boca livre” na casa do cunhado Argôlo, em Ilhéus, não houve quem o convencesse a ficar mais um minuto sequer após deparar com dois metros de cobra bem criada dentro do banheiro. Moral da história: foi parar num hotel da cidade.

Deixando essas estórias de “velho medão” de lado, mais tarde ficaria sabendo que o paulistano Vanzolini, além de fazedor de memoráveis canções como a própria “Ronda” do Kojack, de “Volta Por Cima”, de “Na Boca da Noite” entre outras, ele era um destacado cientista no campo zoológico e, como todo sambista que se preza, um boêmio dos bons.
         Dele se tem em conta, dentre as variadas homenagens que lhe fora conferida, a de um prêmio maior: o do reconhecimento pela contribuição ao progresso da ciência no mundo. 
         Em termos contributivos o daqui da Capitania dos Ilhéus, o “Argôlo das Cobras”, como alcunhado antigamente, embora no copo boa dose de experiência a beber com relação aos 85 anos do herpetólogo de São Paulo, o seu aporte à pesquisa científica já é deveras considerável. E abrangem trabalhos que vai desde a implantação do “Serpentário da Ceplac” (inclusive com o êxito de reproduzir em confinamento) ao aprofundamento do estudo e pesquisa na herpetologia – com ênfase nas serpentes – na Região Sul da Bahia/Mata Atlântica culminando com uma recente tese de doutorado.
         Não sei do talento artístico do atual professor da UESC, Antonio Argôlo. Mas os dois, desprovidos daquele alarde dos maus e numerosos políticos – e de alardeadores de plantão –, doaram através da área biológico-zoológica, um acervo científico respeitável em benefício da sociedade brasileira, e por tabela, da de outras nações, com o adendo de ser dotado de importância especial num momento em que o nosso planeta Terra clama por melhor equilibrar a natureza.
 Assim sendo, pode-se afirmar que os dois doutores são inegavelmente dois cobras.