|
| |
Bom, Bebel é, para os não iniciados, o tratamento carinhoso dado a Belmonte. Pois bem, daqui da Capitania dos Ilhéus, coloquei os panos na sacola e me piquei pra lá.
Era sábado de Carnaval, e ao iniciar da tarde, depois de atravessar a deslumbrante paisagem de coqueirais, de remanescentes da Mata Atlântica, de praias, de muita água e manguezal abundante, por uma hora de viagem através do Passuí – um tipo de rio-canal marítimo-fluvial paralelo ao oceano a partir da barra de Canavieiras –, desembocava na cidade.
Logo na chegada, de uns “papeadores” de beira de cais, captei uma novidade: a Prefeitura Municipal havia acordado verba para pavimentar o Porto com balaustre e reforma do casario. Iniciativa das mais salutares porque a área portuária da gloriosa época da “fartura” do cacau merece ser preservada e arrumada, sobretudo pelo seu passado histórico, matutei. Após o arriar das malas, saí a perambular, e não demorando, me encontrava – juntamente com a esposa –aboletado num bar com um grupo de conterrâneos – residentes e chegados – a recordar os velhos tempos da velha city e, como se diz: “haja causos”. E fulano? Sicrano mora onde? – Beltrano está na terra, afirma um eufórico partícipe. Outro: – Lembra do baba da Praça da Matriz e das jogadas de Heleno Barreiro? Rapaz, mal terminava o baba o cara já estava fazendo misérias no trampolim! Saltava e mergulhava no Jequitinhonha sem provocar nenhum ruído, e nadava como ninguém!
Filho de Belmonte é esse sentimento. Não a esquece nem que a vaca tussa. Ganhando a vida numa metrópole ou a onde for, esteja onde estiver, bastou pintar a oportunidade: olha o cidadão colado e vibrando de satisfação!
Dia seguinte cedo fomos visitar a Cerâmica Quatorze Irmãos, no bairro da Visgueira. Lá estava dona Guiomar, a artista principal. Entre uma conversa e outra, disse-nos de seu sonho de construir uma escola para ensinar aos novos a arte com a argila cozida; como da “ajuda” (com feitura de filmes e o escambau) que lhe prometeram famosos do metiê artístico estrangeiro e da televisão brasileira. Portanto: alô, alô, celebridades, não esqueçam, promessa é dívida! A |
|
|
artesã que os encantara com seu jeito de tratar o barro, aguarda o prometido. Sim, sua marca são os grandes artefatos, e não faz muito, com uma gigantesca panela para uma igualmente gigantesca moqueca encomendada para o Festival Gastronômico da Costa do Descobrimento, se candidatara a entrar para o “livro dos recordes”.
Passando das doze, para não contrariar as homenagens ao Rei Momo, falei pra mulher: Ta na hora de “tomar uma”. Despedimo-nos da dona Guiomar e nos encaminhamos para a muvuca da festa (Av. Rio Mar) com a ideia de chegarmos até o final – na “onze”, claro – do circuito, pretensão inconclusa nos dias anteriores devido às constantes paradas etílicas. Mas a história pareceu se repetir. À metade do percurso, ao depararmos com mais uma leva de amigos carnavalescos a reviver os antigos carnavais, concluímos ser difícil alcançarmos o objetivo. E aí a recordação dos cabeçorras, dos mandus, dos caretas, dos cordões com os músicos da melhor qualidade, dos índios, dos “quebra-galhos”, do “Rompe Brasa” (único bloco remanente), dos bailes no América, nos Carregadores, no Flamengo, na Quinze, na Lira, das tradicionais batucadas da Biela e da Ponta de Areia, ia nos deixando extasiados e tudo mais indo pra cucuia. À lembrança de célebres máscaras imitando autoridades e políticos (devidamente paramentadas), principalmente aqueles que escorregavam na ética, foi o bastante para Amado “Regaludo” Melo, sorrindo à larga para exibir sua nova dentadura, com sarcasmo completar: – Ora, com a quantidade de corruptos que temos hoje seria um prato cheio e daria um desfile dos mais retado!
Como a Terça-Feira pintou e nada de alcançar todo o trajeto, então combinamos uma tomada de decisão. Concluído um tour pelas praças da Bandeira, São Sebastião e Treze de Maio com seus famosos coretos, finalmente, a Praia do Mar Moreno, o extremo almejado. Ufa! Chegamos! O monumento do Guaiamum, embora necessitando de placas explicativas, e de certa manutenção, estava lá gigante, imponente e artisticamente simbolizando a cidade. Todavia uma coisa nos deixara abalados: o avanço da maré que causara destruição de barracas. Mas como o momento nos impulsionava a “deixar a tristeza lá fora”, prosseguimos... |