Um católico em Bebel

 

   Repito que Bebel é o carinhoso epíteto dado pelos mais íntimos a Belmonte, e é de lá que tentarei contar um caso verídico.
   Como bem reconhecem os belmontenses, a cidade é chegada a coisas inusitadas. Por conta disso não é à toa que o amigo Rogério Boca Preta (Rogério Midlej) daqui da Capitania dos Ilhéus, devido minha naturalidade, volta e meia me sacaneia ao dizer que o farol de lá dista um quilômetro de distância do mar, o que é, embora seja de fundamental importância à segurança da navegação nesta área Sul baiano, uma verdade irrefutável,
   Verão de 2008 aporta para conhecer a histórica Porto Seguro, um cidadão paulista. Vai aqui, vai acolá, à Passarela do Álcool, ao Arraial d’Ajuda, enfim, aos seus pontos turísticos e, dentre eles, ao Museu do Descobrimento. Aí vê algo aludido a Belmonte e, como xará da portuguesa onde nascera Cabral, o descobridor, lhe desperta o interesse de conhecê-la.   
   Depois de alguns dias em Porto baixa âncora no destino pretendido.  Então, trata logo de ir a alguns dos atrativos como às praças e seus famosos coretos, ao tal Farol (de Rogério), ao Guaiamum na praia do Mar Moreno, à Biblioteca Sosígenes Costa, à “Cerâmica 14 Irmãos” e, como está “turistando”, não escapa da hospitalidade nativa de “tomar uma” num dos abundantes botecos e, como sempre ressalta o advogado Ivan Gomes, morador daqui da Capitania, de “comer a melhor e mais apimentada moqueca de robalo do mundo”.
   De convicção católica, no outro dia estava cedo a visitar a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo, a padroeira da cidade. O templo da santa não costuma ficar aberto à visitação, mas naquele dia, dera sorte. Após orações, da concentração de fé, de admirar a conservação e a limpeza do santuário, de contemplar as

 

imagens e em especial a do altar-mor, se põe - a respeito daquela Matriz– a interrogar a zeladora. Num momento, ao relato de uma grande enchente do Jequitinhonha no passado, ilhando a igreja, contudo sem penetrar uma gota d’água em seu interior e nem ter abalado a sua estrutura, o visitante se emociona.
    Ao sair se posta diante das placas de turismo (localizadas em frente e lateral do templo) e copia o resumo da história da Santa/Matriz. Deparando com o período das novenas –7 a 16 de setembro–, sublinha, e com entusiasmo promete a si mesmo voltar no ano seguinte, 2009, para participar das comemorações.
    Cumprindo a promessa, o paulista - desta feita, acompanhado de dois filhos, a mulher e um casal amigo de São Paulo – pinta na antevéspera do dia da padroeira, “14 de setembro”, dentro, portanto do intervalo propagado.
    Ciente que o preito arrola tocatas de filarmônicas em palanque, e um lado profano com barracas de bebidas e comidas, show de bandas e outras atrações, à chegada, não pensa duas vezes em rumar –em veículos próprios– direto para a Praça da Matriz, o local dos festejos.  
Decepcionado com o vazio encontrado, ao primeiro passante não titubeia:
– E aí meu, cadê a festa da Santa?
 Meio pasmo com a pergunta o nativo responde já ter acontecida entre 7 e 16 de julho, no que contundente o turista:
– Não, o senhor está brincando! Eu anotei tudinho. Eu vi: 7 a 16 deste mês, portanto, de setembro. Não sou louco, ora!
Como alguns outros transeuntes –e testemunhas– passavam por perto, a materialidade da prova foi inconteste: Todos viram a heresia. O fato é que ao confeccionarem os promocionais turísticos, por sinal de visível “bom gosto”, trocaram o mês de julho pelo de setembro causando o maior prejuízo a um visitante católico.   E, se não me engano, continua a transtornar a vida de outros...