Retado ou arretado?

 

    Dia desses o programa Mais Você da TV Globo, estando em Salvador, fez uma matéria propagando - e como propagou!– ao vivo e em cores o turismo soteropolitano.
    Depois da exposição de alguns pontos, como a revestida de ouro e jacarandá Igreja de São Francisco e sua arte barroca, o Elevador Lacerda, a enorme e diversificada Feira de São Joaquim etc., etc., Ana Maria Braga, a apresentadora, assentou o quartel general no Mercado Modelo, local ideal sem dúvida para capitanear a divulgação da capital e por rebarba, a do Estado. Então com entrevistas foi expondo nossa diversidade, não faltando, como de lei a rica rítmica representada pela capoeira e o “axé” e artistas do time principal.
    Com sua verve, e charme inconfundível, ela ia visitando boxes. Num desses se mercava pimenta em garrafinhas de mais ou menos 300 mililitros, ao preço de “dez real”, como anunciara o balconista. Singela pronúncia para a apresentadora, gozadora e brincalhona como ninguém, numa interlocução continuada com o Louro José, colega de trabalho, prosseguisse uma sacanagem infindável: “E aí Louro, ó: custa ‘dez real’!”. Até aí tudo bem, pois escorregar na concordância plural do dinheiro do país, que não faz muito mudava de nome como cameleão muda de cor, não deva motivar punição dos puristasda língua, além de ser um ocorrido muito menos grave do que os incessantes crimes cometidos por nossos representantes políticos.
   Desculpas à parte, o fato é que o agravo maior se deu quando ela se referindo à “ardilosa”, soltou um sonoro “arretada” (com o azinho no início), e o baiano supostamente da gema, correspondeu interagindo com outro “arretada”, em vez do baianissimo “retada”. Mais uma brecha dando-lhe oportunidade de continuar – com um “arretada” pra cima e pra baixo – sacaneado e

 
gozando meio mundo de baianos, inclusive ao papai aqui que assistia diante da telinha à cena, e ficara “p. da vida” com toda aquela sacanagem.
    Viu? “p. da vida” mesmo, não é exclusividade baiana, tampouco o “arretado” da Ana Maria que, embora nordestino, o termo se formaliza nos limites norte da Bahia pra cima. Com “retado” é outro departamento: tem raízes aqui, integra o “Dicionário de Baianês” do pesquisador Nivaldo Lariú, e com o qual o vendedor deveria, democraticamente, ter usado.
Ilustrando a força do “baianês”, essa maneira sui generis de expressão, “porreta” e “xibungo”, por exemplo, significando respectivamente “legal, gente fina...” e o universal “gay” e que pelo abrangente uso, parecem surgidos de uma nacional dicionarização, na verdade (não absoluta, e com o perdão se outra origem possuírem), eles integram o, podemos dizer, “dialeto” baiano.
   Inigualável, portanto a criatividade popular baiana, mas evidentemente a variação no portugabrasileiro, não é notoriedade só dos da Boa Terra; existe a dos gaúchos, dos mineiros, dos cearenses entre outras tantas “falas” caracterizadas. E nesse contexto se tem que antigamente –pelos menos em Belmonte (Bebel para os íntimos) era assim– sempre que o cidadão saia de sua origem pra ganhar a vida no Rio de Janeiro, e após um certo tempo voltava à cidade natal, dizia-se que o cara voltou “falando carioca”, naturalmente devido a agradável e marcante sonoridade do sotaque, aliás o “s” (olha a importante letrinha! ) deles é bastante destacado, e o professor Pasquale Neto em uma de suas publicações no ensino da gramática, acentua que muita gente de lá se expressa na norma padrão, mesmo na linguagem do dia-a-dia.
   Tempos idos, meu caro Rogério Boca Preta (amigo machista juramentado aqui da Capitania dos Ilhéus que na certa pegará em meu pé por eu andar assistindo Ana Maria), das diferenças aberrantes nos vários aspectos entre um local e outro; hoje não. Por isso não entender qual a razão do nosso mercador, com toda uma efervescente globalização, da baianidade ter refugado o jeito de falar. Ainda que fosse causa, a Bahia não lhe ter dado régua e compasso até o momento. Ó, quanto ao escorrego, é outra história adiante.