AS BOAS RECORDAÇÕE

 

   Meio ao tradicional “come água” pós baba da Avep(a entidade de futebol praiano mais antiga daqui da Capitania dos Ilhéus) no conhecido Bar de Zequito, soou alto o convite “Noel, Noel venha tomar uma com a gente”.
Como não houve resistência por parte do entrante ao recinto, coube então ao baixinho Gilson Passos, o chamador, a iniciativa de apresentá-lo aos demais, seguido das referenciais “gente fina” e “muito brincalhona”.
   Pressentindo, apesar das dobras do tempo, conhecer o convidado, provoquei-o: “Seja bem-vindo companheiro. Mas antes do primeiro copo, uma perguntinha: você fez Emarc?”. À resposta de ter sido pelos anos 66, trepliquei enfático: “Atenção pessoal: eis ao vivo sua majestade, Roberto Carlos!”. Reconhecendo-me, nos abraçamos e recordamos bons momentos da Emarc/Uruçuca.
   Figura deveras das mais divertidas, e com duas extremas manias: a de “autoridade”, e a de imitar o cantor Roberto Carlos. Representava com tamanha autenticidade que quando artificiava, por exemplo, ter recebido uma carta do general Charles de Goulle, notória personalidade da época, ao desapercebido venderia gato por lebre tranquilamente. Com astúcia sobrando, até aquela boçalidade própria dos detentores de autoridade sem mérito, foi descartada por ele. Na despedida, com o: “Senhores: ausentar-me-ei forçado justamente porque amanhã terei uma audiência com o governador Wagner e preciso arrumar as malas...”, revelava toda a inerente naturalidade e claro, a mesma “cara de pau”, no bom sentido, de antigamente. Ah, com o “rei”, uma perfeição: as canções cantadas, o cabelo, o vestuário, enfim um sósia inconfundível.
   O encontro com Noel me fez recordar de mais duas contemporâneas figuraças da Escola: “Cantorzinho” e

 
“Schopenhauer” (ou o carinhoso “Chope”), respectivos Antonio Carlos e Arisval Vigberto. “Cantorzinho”, conceituado de inteligente, não largava uma guitarra, e arranhando firme o inglês, no lugar onde estivesse, uma música dos The Beatles, estava escrito: vinha à tona. Eu, da língua bretã, não entendia patavina, mas “Help” e “Ticket to Ride” interpretadas por “Cantorzinho”, me marcaram, e me colocaram no rol dos fãs dos meninos de Liverpool. Com a Matemática e a Física, as quais manjava, em qualquer oportunidade, travava com Marcos Galinho(um meu conterrâneo belmontense), parceiro inseparável e das matérias igualmente versado, homéricas discussões na praça do Bar de Seu Augusto, uma espécie de quartel-general festivo da estudantada na cidade. Tanto assim que, parecendo uma adequação de vocação, ambos trocaram a área agrícola pela da engenharia civil.
  Já o “Chope”, dotado de oratória convincente, chegou com um toque político e como “socialista”, num período de “caça às bruxas” a esses optantes. A respeito, enquanto eu engatinhava na consciência de que o Livre Mercado –efervescente idéia naqueles idos, propagada e imposta pelos países desenvolvidos, em especial o EUA, ao resto do mundo– não passava de uma falácia, porquanto praticavam um exacerbado “protecionismo”, ele já a possuía de muito. Seus discursos faziam empolgar a comunidade emarqueana e uruçuquense.  Menino! com um vozeirão, caracterizando ainda mais o dom de orador, não havia calouro e veterano que não vibrasse com as citações do filósofo alemão do século XIX, Arthur Schopenhauer (influenciador mundial de muita gente boa, inclusive no Brasil) entremeadas aos arrazoados! Como se pode concluir, daí é a origem do apelido, nome ao qual, a bem da verdade, por mim –e acredito, por outros também– jamais dantes ouvido. De conhecimento alargado, passara pela Ceplac, chegando à dirigente. Hoje, militando no campo advocatício, reside (“Roberto Carlos” virou cidadão uruçuquense, e “Cantorzinho” não sei do paradeiro depois de estadas no Rio e em Salvador), segundo Rogério Boca Preta –um seu “par de ás” das antigas–, em Feira de Santana.
 Recordar, como preceitua o antigo samba carnavalesco, não resta dúvida, é viver, sim. Só que, as boas recordações: como as dos seres humanos citados que foram pra mim, de “pensamento positivo”, como se diz.