Merece os aplausos

         Pode-se deduzir que o poder político no Brasil sempre esteve disposto a agraciar súditos e cidadãos com títulos nobiliárquicos e ordens honoríficas; geralmente escolhidos por conveniências não tantas decorosas, meritoriamente, muito raro.
         Foi assim com D. João VI, e com os Pedros no período imperial. Casos abundavam inclusive um meio hilariante que D. Pedro I teria condecorado Domitila de Castro, sua amante, “Marquesa de Santos” para sacanear o santista José Bonifácio (o famoso Patriarca da Independência), que havia ficado seu inimigo e a detestava.
       Com a Era Republicana o poder não hesitara em continuar com a política das honrarias. Entre várias outras, historiadores registram a passagem de Virgulino Ferreira da Silva em que o governo não titubeia em agraciá-lo com o título de “capitão” da Guarda Nacional, apesar de estar sendo procurado pela polícia em razão de suaassim considerada violência no episódio do Cangaço. A contrapartida era ele combater a Coluna Prestes que corria o país denunciando as injustiças.
        Luis Carlos Prestes, líder desse movimento e Carlos Marighela são dois candidatos que o poder republicano atual poderá colocar na rara lista de recebedores de honras. Iniciativa dos deputados Emiliano José, da Bahia, e Edson Santos, do Rio, eles propõem inseri-los no “Livro dos Heróis da Pátria” do Panteão da Liberdade em Brasília. Diferentemente das honrarias em vida, essa só caberá a brasileiro morto há 50 anos e ...destina-se ao registro perpétuo do nome dos brasileiros ou de grupos de brasileiros que tenham oferecido a vida à Pátria,  para

 

sua defesa e construção, com excepcional dedicação e heroísmo.
       Como o intento exige Projeto de Lei e aprovação na Câmara dos Deputados, como os dois indicados foram “guerrilheiros” e “comunistas” e, como ainda respigam na sociedade brasileira preconceitos de toda espécie, aguarde-se o julgamento.
       Se os senhores deputados estiverem no momento solene da decisão protegidos –como se espera– dos borrifos, portanto distantes das emoções, provavelmente só discutirão os “métodos” adotados pelos dois, porque de antemão seus currículos parecem enquadrar direitinhos no que impõe o artigo 1º da Lei que dispõe sobre a inscrição de nomes no referido Livro.
       O grande escritor baiano Jorge Amado e outros dignos e renomados personagens lhes são naturais avalistas. Como os dois, o escritor era comunista. Os três foram colegas parlamentares e, amigos. A Marighela, no sepultamento de seus restos mortais em Salvador, transferido de São Paulo em 1979, Jorge Amado o presenteou com o sugestivo “Reconhecimento”; a Prestes, com o “Cavaleiro da Esperança”, livro que descreve as andanças de um homem pelo Brasil propagando justiça e liberdade.
        Como as honras –com a roupagem nova dos monumentos, logradouros e outras áreas públicas – continuam agora a político de dignidade muita das vezes incompatível, a ideia do Livro de eleger o meritório ao invés dos interesses longe da imparcialidade, merece os aplausos, embora a proposta tenha sido somente possível e infelizmente homenagear brasileiro incomum com meio século de pós morte.